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Entre a tolerância e a profanação


A igreja brasileira atravessa um dos seus momentos mais delicados. Qualquer cristão minimamente informado concorda que as coisas não andam bem das pernas. Além do espírito do tempo em que vivemos — tempo esse em que o relativismo impera no mundo e o liberalismo teológico tomou conta de nossa academia — ainda temos o chamado "mundo gospel" que não cansa de nos causar espanto e preocupação todos os dias por conta de seus excessos, despreparo e, muitas vezes, má-fé. Como se já não bastassem os desafios que a igreja encontra ao se deparar com uma sociedade pós-moderna, temos ainda muitos cristãos que, ao arrepio de nossos esforços, abrem mão da ortodoxia em prol de um discurso carregado de ideologia. Esses se dizem progressistas, mas na verdade, estão andando para trás. Andam para trás porque adotam uma ideologia em detrimento do evangelho. Evangelho esse que é, em si mesmo, a superação de todas as ideologias.

O último grande feito de um dos maiores ícones do tal "mundo" se deu na última semana: o cantor Kleber Lucas participou de um culto ecumênico no centro de candomblé Kwe Cejá Gbé, da Nação Djeje Mahin, localizado em Duque de Caxias (RJ). Veja o vídeo em que Kleber canta uma música de Milton Nascimento ao som dos atabaques que estão sendo tocados por ogans devidamente trajados:


O fato logo teve grande repercussão na comunidade evangélica. Era natural (e talvez intencional) que alguém com a projeção de Kleber Lucas, ao tomar tal atitude, causaria alvoroço. Ao contrário do que muitos gostariam, o Brasil ainda possui cristãos que zelam pela Verdade (esse mesma, com "V" maiúsculo, que alguns querem fingir que não existe).

Para não melhorar, Kleber Lucas resolveu dar uma entrevista comentando o fato (clique aqui para ler a íntegra) e, para meu espanto, conseguiu tornar tudo ainda pior! Além de repetir todos os cacoetes da esquerda evangélica mais baixa que o Brasil já produziu, o cantor ainda faz o discurso da vitimização; talvez ele esperasse que os evangélicos lhe enviassem flores ao vê-lo participando de um culto destinado ao deus que for da conveniência de cada um dos presentes.

A entrevista é constrangedora. Reproduzirei as falas do Kleber e as comentarei em seguida:

Ao ser questionado sobre o porquê de ter participado da tal reunião, o cantor diz:

Minha decisão se baseou na causa. Um espaço considerado sagrado para um segmento foi violado pela violência, fruto da intolerância religiosa.
A atitude de alguns líderes de outra confessionalidade no sentido solidário é a melhor resposta a esse ambiente de ódio e intolerância que está varrendo nosso país num momento que precisamos estar mais unidos.

Eu, como sabem, defendo a liberdade do individuo como um dos pilares da sociedade na mesma proporção em que combato qualquer tipo de intolerância. Mas não creio que se solidarizar implique em adotar as mesmas práticas. Eu posso ser solidário com qualquer religião, sem deixar de discordar de seus dogmas. 

Outro detalhe interessante é que o entrevistado se vale de uma frase que se tornou quase um mantra em nossa sociedade mas que é completamente vazia de sentido: o que as pessoas querem dizer quando repetem que "precisamos estar unidos"? Unidos em que sentido? Religioso? Político? Cultural? Outra dúvida que me surge é: por que precisamos estar unidos neste momento?  Qual foi o fato metafísico que determinou que toda divergência deve ser deixada de lado em prol de uma união sem qualquer propósito objetivo? 

Em seguida, o entrevistador pergunta se Kleber já esperava que fosse receber críticas por conta do que fez. Ele responde:

Eu esperava uma reação de hostilidade sim. Existem muitas pessoas para as quais a fé é um instrumento belicoso. Gente que não consegue conviver com quem pensa diferente delas.

O que será que fizeram com o Kleber para ele afirmar que tem gente que não consegue conviver com quem pensa diferente? Será que alguém o expulsou de seu convívio? Ou será que para ele "conviver" é sinônimo de "concordar"? Eu convivo tranquilamente com pessoas com as quais discordo desde que elas também me respeitem e estejam prontas para serem criticadas na mesma medida em que criticam. Infelizmente, essa maturidade ainda falta a alguns, mas nós chegaremos lá.

Quando questionado sobre como tem recebido os ataques, o cantor diz:

A negatividade nunca é agradável. Estão me ferindo muito e me fazendo repensar minha caminhada. O que posso afirmar com toda certeza é que essas pessoas não entenderam a mensagem do Cristo. Nós ainda estamos falando de tolerância quando deveríamos falar de respeito.

Qual seria a mensagem de Cristo que o Kleber Lucas entendeu quando foi cantar num terreiro ao som de atabaques consagrados a deuses estranhos à fé que professa? Outro recurso muito utilizado pelos progressistas é afirmar que só eles é que entenderam essa tal "mensagem de Cristo". Mensagem essa tão complexa que eles nunca explicam qual é. Pra mim, a mensagem de Cristo fala de amor, tolerância, respeito, justiça, devoção, santificação e muitos outros pontos que jamais devem ser desassociados.

Quando questionado sobre de onde as críticas vêm, Kleber Lucas chega ao ponto mais alto de sua entrevista. Parte para a vitimização mais baixa, rejeita a Palavra e assassina a história do cristianismo sem qualquer pudor. Vejamos a resposta:

O preconceito é de ambas as partes. No entanto preciso afirmar como pastor negro e que já sofreu preconceito por ser preto e recasado diversas vezes que o preconceito contra as religiões de matizes africanas são as que mais sofrem.
O Cristo que veio da Europa e dos Estados Unidos pelos missionários era branco. A religião europeia e americana eram as únicas que religavam. Do lado dos pretos, índios e outros, só os perdidos. A teologia que veio para o Brasil em sua grande maioria é racista e de segregação.

O músico afirma que já sofreu preconceito por ser um pastor negro e recasado. O que ele não fala é que ninguém acolhe mais os negros neste país do que os evangélicos que ele está criticando. Em especial, os pentecostais. Gostaria que alguém me mostrasse qual a instituição religiosa, política ou de qualquer outra natureza que acolheu os negros neste país com mais respeito do que os evangélicos. Mas isso, curiosamente, o Kleber não diz. Também é digno de nota o termo "recasado", um truque linguístico para tentar suavizar o fato de que Kleber Lucas é um pastor divorciado, algo que vai frontalmente contra as Escrituras que dizem que o obreiro deve ser "marido de uma só mulher" (1Tm 3.2). Reafirmar o que a Bíblia diz é ser preconceituoso?

Mas, não satisfeito, Kleber Lucas resolve cometer o erro que inúmeros cantores evangélicos têm cometido: ele resolve falar de teologia. Eu fico abismado com nossos cantores que, ao invés de cantar, saem por aí disparando sua "teologia" completamente vazia. Na maioria das vezes, passam vergonha por falarem do que não conhecem. Neste caso, não foi diferente: Kleber repetiu o mantra dos teólogos liberais que adoram afirmar que nossa teologia é "muito europeia" ou "americanizada demais" e, por isso, racista.

Alguém esqueceu de avisar ao cantor que a teologia ocidental tem diversos africanos como seus fundadores e principais pensadores. Refiro-me a Atanásio (Egito), Tertuliano (Tunísia), Agostinho (Argélia) dentre outros. A teologia brasileira nunca foi racista e, se o Kleber discordar, peço que prove o contrario. Agora, existe sim uma teologia genuinamente europeia que chegou ao Brasil há algumas décadas: é a teologia liberal, que nasceu na Europa, em especial na Alemanha com Friedrich Schleiermacher. Coincidentemente, é essa teologia que afirma tudo que o Kleber diz nesta entrevista.

Quando questionado sobre a sua missão, o cantor diz:

Essa luta pela igualdade não é minha e nem é recente. Desde os anos 1960, Martin Luther King já trazia o discurso pela igualdade de classes e pela tolerância, dedicando sua vida a esta causa.

No que a luta de Martin Luther King pode ser comparada a de Kleber Lucas? Não me parece que lutar pelo fim da segregação e pela igualdade dos direitos civis de uma etnia possa ser equiparado a participar de um culto ecumênico num país em que a isonomia já está prevista até na Constituição e o racismo já é tratado como crime imprescritível e inafiançável. Não se superestime tanto, Kleber!

Após isso, Kleber Lucas afirma que tem recebido apoio de algumas igrejas e que, seguindo seu exemplo, podemos fazer um Brasil melhor. Como? Ele não explica.


Em outro ponto alto da conversa, o entrevistador questiona (me parece que ele não consegue se referir aos evangélicos sem usar a palavra preconceito na mesma frase, o que diz muito sobre suas intenções) se há muito preconceito nas igrejas. Segue a resposta:


Muito! Infelizmente algumas pessoas ainda pensam que Deus é uma exclusividade delas, eu não acredito nisso. Eu acredito numa fé que comunica com outras confessionalidades. Eu prego isso, eu vivo isso, eu estou pela justiça.
Precisamos aprender que cada ser humano é um, que o Pai é nosso, e que o Pai tem muitos filhos, diferentes, com pecados diferentes e que não podemos julgar nosso irmão por seu pecado ser diferente do meu.
A diferença é o que mais nos aproxima da Trindade , que é a família de Deus. Podemos dialogar com todos.

Deus não é exclusividade de ninguém, mas sua Palavra está acessível a todos e nela há preceitos que devem ser seguidos por todo aquele que quer servi-lo. Portanto, a fé pode (e deve) dialogar com outras confessionalidades. Mas há uma enorme diferença entre o diálogo, que é salutar, e a profanação. Dialogar é válido, cantar ao som de atabaques consagrados aos ídolos é outra história.

Sobre essa questão de "julgar o irmão", farei um post específico em breve.

No final dessa resposta, Kleber tenta mais uma vez falar de teologia e comete uma heresia: ele compara seu diálogo inter-religioso com o relacionamento da Trindade. Kleber só esqueceu de se lembrar que a Trindade é perfeita. Na Trindade, não há sequer sombra de variação; não há divergências doutrinárias ou confessionais. A Santíssima Trindade é perfeita e colocar um relacionamento humano no mesmo patamar que Ela é atentar contra a base do cristianismo. Talvez falte ao Kleber Lucas um correto entendimento sobre a doutrina trinitariana que foi desenvolvida pelo teólogo africano Atanásio. Não creio que essa falha seja culpa dos missionários. 

A entrevista termina com o repórter perguntando qual seria o melhor caminho para a sociedade. A resposta é:

Respeito, consciência cidadã, amor, amor e amor. O amor é o melhor caminho.

Jesus não é mencionado. O amor como um fim em si mesmo se tornou o messias de muitos.

Conclusão 

Não tenho a intenção de dizer que o preconceito não existe ou que não deva ser combatido. Todo preconceito decorre da falta de Cristo no coração do homem. É Ele quem me faz olhar o próximo e reconhecer neste um igual, quer seja em pecados, quer seja em virtudes. Porém, é esse mesmo Cristo que exige de nós uma conduta diferenciada. Se somos igrejas, isto é, "chamados para fora" devemos entender que nossa fé não está limitada a quatro paredes de um templo, mas ela também transcende a cultura e o sistema deste mundo. Portanto, ser igreja consiste em entender que não somos daqui e, por isso, devemos pregar o Evangelho para transformar o mundo. Nunca o contrário.
Entre a tolerância e a profanação Entre a tolerância e a profanação Reviewed by Alcino Júnior on quinta-feira, novembro 30, 2017 Rating: 5

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